Como realizar o Yoga? - Parte 2

Certo,  disciplina e desapego (coluna anterior) como atitudes indispensáveis, mas é agora que eu vou me contorcer todo? Quando é que vou aprender os exercícios respiratórios? Afinal de contas, não tinha meditação também?
Aonde é que foram parar todas as técnicas do Yoga?

Por Atílio Baroni Filho(*)
A realização de si próprio e o autoconhecimento parecem objetivos   egocêntricos  para quem entra em contato mais profundo com o Yoga pela primeira vez. Vivemos em uma sociedade que valoriza o indivíduo, suas opiniões, sua liberdade e suas posses acima de tudo, sem contar o esforço competitivo e individual de vencer na vida, subir os degraus da carreira e fazer dinheiro. É compreensível que, à primeira vista, as noções de interiorização da percepção e de um eu profundo pareçam estar relacionadas com essa concepção do “indivíduo burguês”.

No entanto, quando  Pátañjali  prossegue em sua descrição da doutrina enumerando as oito técnicas que devem ser praticadas para se realizar o Yoga, as primeiras citadas são as menos conhecidas: Yama (proscrições ou normas de convivência) e   Niyama   (prescrições ou auto-aperfeiçoamento). Ambas continuam o tema da coluna anterior, as atitudes e postura do praticante, desta vez falando sobre suas relações com o outro e consigo mesmo, funcionando como uma espécie de guia para as decisões do cotidiano. Cada uma possui cinco tópicos, que descreverei de maneira breve.
1- Ahimsa (não-violência) : O princípio que costuma guiar todos os outros prega ao praticante a adoção de uma postura pacífica, de não-agressão tanto ao outro quanto a si mesmo. Essa agressão pode ser  interpretada e ampliada em todas as suas formas reconhecíveis, seja ela  física, verbal, emocional, social-econômica, etc.

2- Satya (autenticidade) : O conceito mais importante da cultura hindu, presente na bandeira da Índia e tema do seu movimento de libertação, é muitas vezes também traduzido como não mentir ou verdade. Esta atitude não se aplica apenas ao discurso, a apenas falar a verdade, diz respeito à expressão autêntica de quem você é em todas as suas ações, sentimentos e pensamentos.

3- Asteya (não roubar) : Fácil de ser explicado, consiste  em  não tomar aquilo que não é seu. Ampliando a discussão sobre o assunto, estão incluídos nesse conceito o roubo não somente de coisas materiais, mas também de idéias, frases, criações artísticas, etc.

4- Brahmacharya (vida espiritualmente regrada) : Um conceito polêmico atualmente, é também traduzido como abstenção sexual. Faz referência ao período na vida do hindu em que ele se dedica exclusivamente ao estudo  sob a orientação de  um guru (aproximadamente na época da adolescência). Muitos interpretam esse   yama   como uma vida de estudo e sem exageros ou comportamentos irresponsáveis sexualmente.

5- Aparigraha (não cobiçar): Este conceito é estritamente relacionado ao desapego, discutido anteriormente. É o não cobiçar para além do que você realmente precisa ou do que faz sentido para você, evitando o consumo pelo consumo em si.
1- Shaucha (limpeza) : Traduzido também como purificação, mas não simplesmente a remoção de impurezas. O conceito de purificar aqui citado é o de remover de si tudo aquilo que não é verdadeiramente seu.

2- Santosha (contentamento) : A busca por um estado de espírito pleno, uma felicidade que não possui causa nem direção aparentes. É importante notar que isso está longe de significar inação ou passividade, os praticantes de Yoga são historicamente reconhecidos como grandes ativistas e questionadores da ordem social.

3- Tapas (controle do calor interno) : É muito traduzido também como austeridade. Está relacionado   à obtenção de  um acúmulo de energia interior através do esforço contínuo em determinadas posições corporais, exercícios respiratórios ou outras atividades que aumentem o calor interno, possibilitando um aumento de vigor, virilidade e disposição ao praticante.

4- Svadhyaya (auto-estudo) : Procurar constantemente conhecer a si mesmo é uma busca muito conhecida na filosofia ocidental e de grande importância para o praticante de Yoga. Está relacionado ao quarto   yama,   já que é considerado o mais importante estudo a ser realizado de forma diligente.

5- Ishvara pranidhana (entrega ao senhor interior) : É comum encontrar traduções que falam simplesmente da entrega “ao Senhor” ou “a Deus”, mas esse   niyama   está falando especificamente sobre o eu profundo discutido na primeira coluna. Uma atitude despreocupada com relação às misérias e vitórias da sua vida, atingida na entrega das conseqüências das suas ações a esse senhor interior que o praticante procura encontrar e realizar, ou seja, ao si mesmo.

É possível desencadear uma vasta discussão sobre os tópicos acima . S uas traduções e significados são ainda hoje muito debatidos entre os estudiosos da doutrina do Yoga. Vamos nos focar no ponto mais importante, que é o significado destas proscrições e prescrições serem o ponto de partida para a prática.

Não é possível realizar a si mesmo fora do seu contexto social e histórico
O ser humano é inegavelmente social . M esmo um monge retirado em seu templo possui um papel social em sua cultura e convive com outros seres humanos que ali habitam, todos eles com medos, inseguranças e sentimentos que precisam ocupar o mesmo espaço. Toda ação humana é também uma ação social, pois repercute no ambiente compartilhado por outros seres humanos, mesmo que seja uma ação “para dentro”. Uma transformação interna altera todas as relações do sujeito, consigo mesmo e com os outros e seu ambiente, ou seja, tem conseqüências externas. Não há como simplesmente “não agir” em um mundo de causalidade (de causas e efeitos).

Para se chegar à realização de si mesmo através do Yoga é preciso ter como ponto de partida um sujeito que busca se relacionar de uma maneira muito específica consigo mesmo e com o outro. Não estamos falando   de uma suposta moralidade superior ou de um código inquestionável de conduta, mas sim de agir de determinadas maneiras esperando obter determinados resultados. Uma pessoa que busca uma atitude pacífica não está certa ou errada, não é boa ou ruim, ela simplesmente tem mais chances de viver uma vida pacífica do que uma pessoa que busca a violência, proporcionando um entorno mais propício para o auto-estudo.

Dessa maneira, praticar Yoga e ignorar a situação social ao seu redor é simplesmente ser irresponsável ou passivo frente à realidade em que se vive, ou seja, é não praticar Yoga. O objetivo do Yoga pode ser transcendente, mas precisa se concretizar no mundo e para o mundo.
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Essas normas não estão restritas a casta, lugar, tempo e circunstâncias, e são chamadas de “o grande voto”, que serve para o mundo todo; É o desenvolvimento de idéias contrárias aos maus pensamentos, com a finalidade de evitá-los.
Yoga Sutras de Pátañjali, cap. 2, sutras 31 e 33.
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(*)Atilio Baroni Filho é instrutor de Yoga em São Paulo.
Para contatos e dúvidas mande um e-mail para atilio.baroni@gmail.com
Edição VF Fotos: Divulgação Data: Maio 2009