Entrevista
Hemorróidas - Cirurgia sem cortes

Dr Carlos Sobrado é Mestre e Doutor em cirurgia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP. Professor Assistente Doutor da Disciplina de Coloproctologia do Hospital das Clínicas da FMUSP.
Médico especialista em doenças anorretais, se dedicando a profissão há mais de 22 anos.
É também Membro Titular e especialista da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, e Delegado do Colégio Brasileiro de Cirurgiões-CBC, responsável pelo setor de coloproctologia no estado de São Paulo.
Conhecendo melhor o problema
Novas técnicas de tratamento
Entrevistado por Luis Guilherme Zenga

LG – Dr. Carlos, o que são hemorróidas?
Dr. Carlos Sobrado - Hemorróidas são dilatações venosas localizadas na região anorretal, que geralmente ocorrem nas pessoas após os 30 anos de idade.
A doença hemorroidária é afecção muito freqüente, acometendo mais de 40% das pessoas com mais de 40 anos de idade, segundo dados do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos da América (EUA). Acredita-se que no Brasil, a incidência e prevalência sejam semelhantes. Apesar de acometer grande parte da população, a doença hemorroidária é um assunto pouco comentado entre as pessoas, principalmente entre os homens, mesmo entre amigos mais próximos e até parentes (um verdadeiro tabu); e esse constrangimento se justifica pelo fato de estar associado à prisão de ventre, e a práticas sexuais pouco comuns.

LG – Quais os sintomas mais comuns das Hemorróidas?
Dr. Carlos Sobrado – As veias dilatadas localizadas no reto e ânus podem inflamar-se, e em seguida romper-se causando sangramento anal (sangue vermelho vivo, rutilante), ardência e coceira no ânus, desconforto anal, secreções, prolapso (saída da hemorróida através do ânus), inchaço anal e dor. Durante uma crise de inflamação aguda, pode-se notar presença de nódulos endurecidos no ânus. Muitas vezes estes sintomas são bastante discretos e podem durar por muitos anos, e em algumas situações podem surgir de uma hora pra outra.

LG – Quais os fatores principais que podem desencadear hemorróidas?
Dr. Carlos Sobrado – As hemorróidas geralmente têm origem genética, sendo muito comum em algumas famílias. Os principais fatores predisponentes para o aparecimento das hemorróidas são:
- prisão de ventre (constipação intestinal) com fezes muito ressecadas, que ocorre principalmente nas pessoas que ingerem poucas fibras (verduras, cereais e frutas) na dieta;
- esforço evacuatório intenso;
- baixa ingestão de água;
- sedentarismo;
- pessoas que passam a maior parte do dia sentadas;
- Gravidez: no período gestacional, principalmente no último trimestre da gravidez e também durante o parto vaginal, tem-se aumento da pressão nos vasos sanguíneos da região pélvica, com piora das hemorróidas.

LG - Quais os tipos de Hemorróidas?
Dr. Carlos sobrado -   Existem as hemorróidas externas, que são as dilatações venosas localizadas na região externa do ânus, e são facilmente diagnosticadas pelo simples exame clínico. Temos as hemorróidas internas, cujas dilatações das veias situam-se no interior do ânus, e que para um diagnóstico correto deve ser realizado um exame proctológico especializado pelo médico coloproctologista, e temos as hemorróidas mistas que geralmente estão presentes numa fase mais avançada da doença, e produzem muitos sintomas.

LG – Alimentação é um fator importante para evitar a doença?
Dr. Carlos Sobrado - Você deve tomar cuidado com sua alimentação. Evite alimentos gordurosos e condimentados. Dê preferência a alimentos ricos em fibras (cereais, frutas, legumes e verduras), procure ingerir 25 a 30 gramas de fibras por dia.
Procure fazer refeições regulares, e mastigue bem os alimentos. Habitue-se a comer todos os dias nos mesmos horários.
Muito importante também é a ingestão de no mínimo 2 litros de água por dia, e sempre que possível procure obedecer ao desejo evacuatório- evite ficar se “segurando”
Procure fazer atividades físicas diárias e regulares (uma superdica é andar no mínimo 30 a 45 minutos por dia).
Além de evitar pimentas, álcool, alimentos ricos em gordura animal, e condimentos dada à sua ação irritante sobre a mucosa previamente lesada; evite medicamentos constipantes (antiácidos, alguns antidepressivos , diuréticos e antiinflamatórios) e também alimentos que provoquem prisão de ventre (farináceos, maçã, banana-maçã, etc).

LG- E o uso de laxantes, roupas sintéticas e a higiene?
Dr. Carlos sobrado - O uso de laxantes sem orientação médica é prejudicial, pois alguns podem levar a diarréia piorando o quadro clínico. Com relação às roupas íntimas de material sintético, devem ser evitadas, uma vez que os tecidos sintéticos prejudicam a respiração e ventilação da pele, e podem até causar dermatites e irritações locais, produzindo secreções que podem sujar as vestes. Nas fases mais críticas evite as roupas de material sintético, principalmente o tipo “fio dental” muito comum hoje em dia, principalmente nas freqüentadoras assíduas de academias de ginástica e musculação. Use somente roupa íntima confeccionada em algodão.
A higiene da região anal é de fundamental importância. Evite o uso de papel higiênico sempre que possível, faça a higiene com água e sabonete.
Também você deve ir ao banheiro sempre que sentir vontade e permanecer no vaso sanitário apenas o tempo necessário que estiver sentindo vontade, evite levar livros, revistas e jornais.

LG – Dr Carlos, agora gostaria de saber quais os tipos de hemorróidas de acordo com a gravidade?
DR Carlos Sobrado – As hemorróidas se classificam em 4 graus, de acordo com sua gravidade:
Primeiro grau: eventualmente ou constantemente sangra no momento da evacuação.
Segundo grau: sangramento anal com saída da hemorróida (exteriorização de uma "bexiguinha") durante a evacuação e que regride espontaneamente.
Terceiro grau: sangramento anal com prolapso (saída da hemorróida), que retorna para dentro do ânus apenas com manobras digitais (necessita da ajuda dos dedos).
Quarto grau: a hemorróida não retorna para o interior do reto e ânus, mesmo tentando empurrar para dentro.

LG – Dr Carlos, agora que sabemos sobre hemorróidas. Gostaria de saber também novas técnicas de tratamento sem cirurgia, e também sobre está revolucionaria técnica de operação sem cortes?
Já é sabido por todos que a afecção hemorroidária é uma doença embaraçosa, e que causa ao paciente um certo trauma e isso faz com que em muitos casos ele sofra a vida inteira sem procurar atendimento especializado (coloproctologista). É importante ressaltar para as pessoas que o sangramento pelo ânus, apesar de sempre ser associado à presença de hemorróidas, pode também ser decorrente de outras doenças mais graves como por exemplo: câncer, pólipos, fissura anal, divertículos no intestino, entre outras; e que o diagnóstico precoce é fundamental para um tratamento curativo.

Vale lembrar que apenas cerca de 20% dos portadores de hemorróidas que procuram atendimento médico, necessitam de operação, sendo que a grande maioria poderá ficar curada com medidas conservadoras (não cirúrgicas), que são realizadas no próprio consultório.

Portanto, nos casos de hemorróidas de 1º e 2º grau poderá ser usado o processo de ligadura elástica e ou coagulação com raios infravermelhos (Infrared), procedimentos estes que são realizados no consultório, e por incrível que pareça, é feita apenas com anestesia local (gel), sem necessidade de internação e sendo liberada em seguida, podendo retornar ao trabalho no mesmo dia.

Vamos para a técnica de operação sem cortes:
Já para as hemorróidas mistas e volumosas de 3º e 4º graus, a operação se faz necessária, sendo a técnica a ser empregada dependente do tipo, e da presença ou não de complicação associada.
Mais recentemente têm sido empregada uma técnica que “grampeia” as hemorróidas no interior do ânus, sem a necessidade de cortes e de pontos na região anal.
Nesta técnica, a operação é realizada na região interna do ânus, sendo o corte fechado com o auxilio de um grampeador, semelhante ao utilizado para cirurgias do intestino e para operações de redução de estômago. Portanto, a ferida fica localizada internamente, numa região que a inervação é menor, assim como a sensibilidade também.
Após o uso deste aparelho nota-se que o pós-operatório tem sido, de maneira geral, bem menos incomodo, menos doloroso e a recuperação mais rápida do que com a cirurgia tradicional.

LG – Dr. Carlos e quanto à recuperação?
Dr. Carlos sobrado - O pós-operatório é geralmente menos doloroso, assim como a recuperação é mais rápida. A cicatrização ocorre em média entre 7 a 10 dias, e o tempo de internação é reduzido pela metade. Desde que bem indicada e realizada por profissionais experientes, o tratamento é definitivo, e o índice de recorrência é baixo.

Dr. Carlos Walter Sobrado
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Fonte: Dr. Carlos Walter Sobrado Foto: Divulgação Data: Dezembro 2006