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É muito comum na fase pré-escolar a mãe encontrar nas mochilas de seu filho objetos que não pertencem a ele. Ao questioná-lo, a resposta quase sempre é a mesa: “Meu amiguinho me deu, porque não gostava mais dele”. Mas como lidar com um assunto tão delicado, sabendo que o filho não ganhou aquele presente de ninguém e que provavelmente essa não foi a primeira vez que fez isso? Normalmente a causa desse comportamento é uma forte carência afetiva e o processo costuma ter início na infância. Para chamar atenção de seus pais ou das pessoas que mais gosta, a criança inicia uma aventura de caça ao afeto ausente, começando a furtar balas, doces e até brinquedos. Da escola, ela tira os pertences de seus amiguinhos. No supermercado, feira ou lojas, começa a evoluir esse processo, se apoderando de chicletes, pilhas, cartuchos de videogames e outros itens que povoam seu universo infantil. Sem nenhum controle ou percepção dos pais para ajudá-lo, seu comportamento vai se agravando cada vez mais. Em vez de sabor de conquista, o objeto roubado perde sua importância logo em seguida, mas proporciona ao pequeno infrator o alívio da tensão e da ansiedade que o perseguiam até a consumação do ato. Quantos pais já não souberam – perplexos - que seus filhos adolescentes em viagem para a Disney foram pegos roubando chaveiros e pequenos objetos. Lá, no entanto, as leis são muito mais rigorosas que no Brasil, levando muitos jovens a passarem por total constrangimento perante a justiça americana. A cleptomania é uma compulsão desenfreada para o roubo, podendo atingir crianças, adultos e idosos. Mas é mais comum do que se imagina entre as mulheres. Na novela “América”, a atriz Christiane Torloni vive a personagem Haydée que retrata muito bem esse tipo de comportamento. Não importa a classe social, as mulheres com esse desvio de comportamento perdem o controle e se sentem cada vez mais carentes. São atraídas pelas ofertas glamurosas do universo fashion e da beleza, chegando até a furtar esmaltes escondidos em rolos de papel higiênico. Desde muito cedo os pais devem ficar atentos aos sinais emitidos por seus filhos. Sua ausência, a falta de tempo ou pouco contato com a criança podem desencadear este processo sem que se perceba. As crianças precisam de atenção, carinho, amor e compreensão. Sem isso, elas, que ainda estão formando sua personalidade, podem se desviar para qualquer compulsão. Em poucas palavras, as crianças roubam para se compensarem de algo, na tem tentativa de buscar o amor que precisam e não têm dentro de casa. Na verdade, o roubo tem apenas um valor simbólico nesse processo de resgate do amor ausente. Afeto e terapia A melhor maneira de prevenir que uma criança se desvie para a cleptomania é lhe dando todo o afeto que necessita. E aqui o que vale é a qualidade do afeto, não a quantidade. Os pais devem ficar atentos aos atos de seus filhos. Quando aparecerem com algum objeto que não lhes pertence (lápis, borracha ou brinquedo), oriente a criança a devolvê-lo, explicando sempre que não é correto pegar algo dos outros. O desaparecimento definitivo da cleptomania é muito difícil. Por isso, ao menor sinal os pais devem procuram um profissional capacitado para que o mesmo tente impedir a evolução da mesma. Há várias formas de psicoterapia eficazes no tratamento de cleptomaníacos. Uma indicação seria a psicoterapia comportamental, que tentará modificar os pensamentos e comportamentos do paciente. Medicamentos ajudam no tratamento, mas não é o bastante. Em paralelo, tem que se buscar o desenvolvimento do autocontrole da pessoa, promovendo um diálogo aberto com o paciente sem – jamais – culpá-lo pelo seu ato. É importante fazê-lo compreender o que a doença causa para si mesmo e para a sociedade, envolvendo muitas vezes a família e os amigos. * Estevan Matheus é psicólogo especializado em psicoterapia de pré-adolescentes, adolescentes e adultos - esvero@uol.com.br |
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